![]() |

Portugal é um país democrático e o futebol não é uma ilha autoritária, mas talvez seja um pântano.
'…Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, (…)
um beato, um fanático ou um jesuíta! Antero de Quental
'No clube manda o presidente, na equipa mando eu." JJ
Ronaldo já foi vítima deste negócio sinistro num mundial e
sobreviveu. Enquanto o então selecionador caiu
em desgraça e caiu sempre, na razão direta da continuidade e prestígio
do nosso maior futebolista, um dos melhores de sempre. ( O conceito de n. 1, é
uma falácia, porque não parte dos mesmos critérios e percursos).
Agora assistimos ao primeiro ato da mesma farsa. Não havia
nenhuma razão desportiva para que Ronaldo não fosse titular e na preferência
por outros avançados nas substituições, também não. Parece até uma autêntica
provocação, que as declarações vazias do treinador prenunciam. Simplesmente,
achou, porque pode, porque manda e porque quis.
Quando a seleção portuguesa perder Ronaldo de vez, tornar-se-á
uma seleção vulgar. Não por não possuir excelentes jogadores, pode até repetir
títulos internacionais, mas porque hoje há muitas outras que também os detêm e
até troféus mais numerosos e importantes. Mas não tinham Ronaldo, jogador e
cidadão do mundo.
Os que se ocupam de o afastar da seleção serão esquecidos na
razão direta do tempo que distar da sua saída. E o futebol voltará a ser uma
das pequenas coisas da vida dos portugueses.
Um mês depois do discurso de Antero sobre as Causas da
Decadência dos Povos Peninsulares, a Sala das Conferências democráticas foi
encerrada.
Um dia depois dos acontecimentos que afastaram CR 7 do jogo,
aquelas palavras que pretendiam vulgarizá-lo como jogador e o seu reforço com
outras que se permitiam tratá-lo como um servente, "Se eu precisar,
ele entra, se eu não precisar, ele não entra”, negaram-lhe o lugar único que
conquistara na seleção, a duras penas.
Ficou por demonstrar que CR7 já não possuía as qualidades
futebolísticas que são exigidas aos outros selecionados. O argumento principal
é a comparação do jovem e glorioso futebolista com o jogador sénior atual,
quando tal confronto tem de ser com a panóplia dos profissionais hoje
selecionáveis.
A má formação ética e a ignorância em matéria de ciências do
desporto, fazem com que o tema da substituição de Ronaldo regresse regularmente
à comunicação social, em vez de se valorizar a sua longevidade ao seu serviço.
A maior parte dos espetadores só vêm os golos, os grandes passes e remates e as extraordinárias defesas. Não percecionam
o que é “jogar sem bola” nem a
importância do fator psicológico e emocional no jogo. O respeito e o temor pelo
atleta e capitão que pode resolver uma partida, acompanharam sempre a entrada
da camisola 7 vestida por Ronaldo em campo, qualquer que fosse a sua forma e
idade, condicionando o treinador da outra equipa e os seus jogadores, infundindo
consideração na equipa de arbitragem e admiração na assistência. Despojar
Ronaldo desse símbolo_ que também rendeu milhões à Federação e aos investidores,
é um mau negócio para os capitalistas e
os seus agentes e um ato moralmente desprezível. Envergá-la noutro corpo, mostra
até que ponto os colegas de Ronaldo estão dependentes da estúpida máquina do
futebol.
Mas, como no passado, o coro dos que servem os donos da
bola foi cuidadosamente selecionado para condenar em toda a comunicação
desportiva a prevaricação.
«Ronaldo só sairá da Seleção se quiser, o que é algo a que
nenhum jogador deveria ter direito». Eis como se torturam as palavras para que elas
digam o que queremos, no caso o direito e a ética. Na sociedade do séc.
XIX, que já não era para velhos" improdutivos", e onde a dignidade
política e cidadã não tinha cotação no mercado, Antero suicidou-se num jardim
público da sua terra natal, Cristiano
Ronaldo salvou da morte a condição moral e social do jogador profissional, que
não é criado nem servo; como o fizera sempre, no Mundial do Qatar, na última
passagem pelo Manchester e, na própria Liga das Nações, quando, em consenso,
prescindiu da titularidade permanente, para resguardar o seu contributo nas
competições internacionais mais importantes entre seleções e mostrar ao mercado
do futebol que a equipa nacional era composta por muitos e excelentes
jogadores.
Pergunto ao coro dos insultos: podemos facilmente encontrar
mil presidentes da Federação? Um cento de treinadores de seleções? Outro CR7? Ah! Porque me recordo tão bem da
comparação entre o jovem Eusébio e o
ídolo já com os joelhos desfeitos e sem fortuna, assobiado no estágio!? Então,
quem perdeu neste séc. XXI? A nação portuguesa, expatriada pelas quatro
partidas do mundo e o seu país!
Portugal é um país democrático e o futebol não é uma ilha
autoritária, mas talvez seja um pântano.
O1 e 02 de outubro de 2026

Sem comentários:
Enviar um comentário